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Questionário de riscos psicossociais: qual usar, o que ele mede e o que ele não resolve

Publicado em 01 de outubro de 2026

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O governo não indica questionário oficial: o Ministério do Trabalho diz que “não define ou não sugere nenhuma metodologia específica”, e cabe à empresa escolher uma ferramenta adequada ao risco que vai avaliar. Entre os instrumentos com validação publicada no Brasil, a versão curta brasileira do COPSOQ II reúne 23 dimensões do trabalho, pontos de corte publicados e uma licença que permite usá-la dentro de um serviço pago. Seja qual for a escolha, o questionário não cumpre a NR-1 sozinho: a NR-1 pede que a empresa identifique os perigos, avalie e classifique os riscos, implemente medidas e acompanhe o controle (item 1.5.3.2), e o questionário é só uma das fontes da identificação.

O que é um questionário validado

É aquele cujas propriedades foram testadas e publicadas em estudo científico, com trabalhadores da língua e do país em que vai ser aplicado. Tradução não é validação: só o estudo mostra se a versão traduzida continua medindo o que diz medir.

Para a NR-1, o instrumento precisa ainda medir o trabalho, e não a pessoa: carga, ritmo, autonomia, apoio, clareza do papel, justiça, violência. E precisa de critério de interpretação publicado, sem o qual a pontuação não vira nível de risco. O Guia do Ministério pede que a ferramenta esteja “cientificamente fundamentada”, com estudo ou instituição de SST que lhe dê embasamento.

Quais existem com validação brasileira

Uma revisão de 2008 já catalogava 33 instrumentos para fatores psicossociais. Com validação publicada no Brasil e foco no trabalho, a lista cai para seis famílias:

  • COPSOQ II, em versão curta (Gonçalves e colaboradores, 2021) e média (Lima e colaboradores, 2019).
  • Job Content Questionnaire (JCQ), do modelo demanda e controle de Karasek (Araújo e Karasek, 2008).
  • Job Stress Scale, versão resumida do mesmo modelo (Alves e colaboradores, 2004).
  • Effort-Reward Imbalance (ERI), de Siegrist, sobre esforço e recompensa (Chor e colaboradores, 2008).
  • PROART, protocolo criado na Universidade de Brasília (Facas, 2013).
  • ITRA, inventário de Mendes e Ferreira (2007).

O JCQ exige licença paga por projeto para uso comercial. O ERI é livre só para pesquisa e ensino; o uso comercial pede contato com o detentor dos direitos. A Job Stress Scale deriva do modelo do JCQ, e a licença deve ser confirmada antes de usá-la num serviço. Para PROART e ITRA não localizamos termos formais de licença para uso comercial.

Um levantamento com psicólogos e médicos do trabalho no Brasil (Vasconcelos e Trentini, 2021) mostrou que os instrumentos mais usados por eles eram escalas de estresse e sofrimento do indivíduo, e concluiu que a prática privilegia o rastreamento de transtornos em detrimento dos fatores do trabalho. Escala de sintoma não identifica o perigo que a NR-1 manda identificar. O Ministério separa as coisas: a avaliação de riscos “não se confunde com a avaliação clínica individual da saúde mental dos trabalhadores”.

COPSOQ: o que é e qual versão vale no Brasil

COPSOQ é a sigla de Copenhagen Psychosocial Questionnaire, mantido por uma rede internacional de pesquisadores, com versões de 2005, 2010 e 2019. O levantamento de 2021 o descreve como padrão-ouro por integrar os modelos de demanda e controle e de esforço e recompensa. Ele cobre ainda liderança, justiça, conflito entre trabalho e família, saúde e comportamentos ofensivos.

A versão curta brasileira do COPSOQ II tem 40 perguntas, 23 dimensões e 7 domínios. Em 2026, a Revista Brasileira de Saúde Ocupacional publicou os pontos de corte por dimensão, que classificam o resultado em seguro, atenção ou risco (Sato e colaboradores). O artigo registra que ainda não existem valores de referência da população brasileira e que a versão foi reconhecida pela rede internacional. Quem procura o questionário em PDF tem a fonte certa: o artigo é de acesso aberto no SciELO e traz as perguntas e os cortes.

E o COPSOQ III? Não localizamos validação para trabalhadores brasileiros publicada em periódico, e a lista oficial da rede traz, para o Brasil, só as versões do COPSOQ II. Há teses sobre ele com trabalhadores brasileiros e uma validação em Portugal publicada em 2026, mas português de Portugal não é validação brasileira.

Quanto à licença, a rede declara o questionário livre também para uso comercial, desde que se sigam as diretrizes dela e não se cobre pelo questionário em si; cobrar por avaliação, análise e treinamento é permitido. Versão modificada não pode circular com o nome COPSOQ. O artigo de 2026 está sob licença Creative Commons de atribuição, que permite o uso com citação da fonte.

HSE: o questionário do órgão britânico

O HSE, órgão de segurança e saúde no trabalho do Reino Unido, publica os Management Standards: seis áreas de gestão (demandas, controle, apoio, relacionamentos, papel e mudança). O questionário que os acompanha, o Indicator Tool, tem 35 itens em sete subescalas e é distribuído gratuitamente.

As faixas de comparação do HSE vêm de uma pesquisa nacional britânica, não da população brasileira. E a adaptação para o português, feita na Unicamp, aparece como material interno de 2013 e trabalho de congresso de 2015; um artigo de 2017 aplicou o questionário em organizações brasileiras, mas não localizamos artigo revisado por pares com a validação psicométrica dessa versão. O próprio HSE avisa que o questionário não deve ser a única fonte de dados: as conclusões são discutidas com grupos de trabalhadores antes de virar plano.

O que o questionário não mede e não resolve sozinho

O Ministério do Trabalho escreveu que o questionário pode não abranger todos os fatores de risco do trabalho analisado, e que identificá-los continua sendo responsabilidade da empresa. Um exemplo: a versão curta brasileira do COPSOQ II não tem dimensão própria de insegurança no emprego nem de gestão de mudanças (a má gestão de mudanças está na lista de exemplos do Guia do Ministério), e mede o apoio da chefia, não o dos colegas. O que fica de fora pede outro método: outra escala validada, entrevista, observação ou análise de documentos.

O questionário também não é obrigatório, e o Guia diz que, com poucos trabalhadores, pode ser avaliada a oficina ou a observação da atividade. Com poucos respondentes, o resultado de um grupo pode deixar reconhecer quem respondeu.

E há o que nenhum questionário faz. O Ministério diz que a documentação de questionário padronizado “não será considerada evidência suficiente, de forma isolada”. O questionário atende à consulta, um dos três mecanismos de participação; as noções e a devolutiva ficam de fora. Também ficam por fazer o critério que transforma pontuação em nível de risco, o plano com responsável e prazo e a volta para medir o efeito das medidas. As diretrizes do COPSOQ resumem: nunca comece uma avaliação de risco psicossocial sem a intenção clara de agir se o resultado indicar.

Como escolher

Antes de aplicar, responda a seis perguntas e deixe as respostas escritas no documento:

  1. Mede o trabalho? A organização do trabalho, não os sintomas de cada pessoa.
  2. Tem validação publicada no Brasil? Com autor, ano e onde saiu publicada.
  3. Tem critério de interpretação publicado? A NR-1 exige critério escrito.
  4. A licença permite o seu uso? O método é livre, mas o texto das perguntas tem autor.
  5. Cabe no tamanho da empresa? Em empresa pequena, oficina ou observação podem servir melhor.
  6. Quem aplica domina o método? O Guia avisa que não basta obter o formulário e aplicar.

Para levar o resultado ao documento, veja como incluir os riscos psicossociais no PGR. Sobre quem pode conduzir o trabalho, veja quem pode fazer a avaliação de risco psicossocial. A norma, item por item, está em o que a NR-1 exige.

A nossa escolha

A Meta declara o instrumento por inteiro no anexo do laudo, com as dimensões que ele mede. O questionário faz parte da primeira das quatro etapas do trabalho da Meta, Identificar, e é seguido por Avaliar, Orientar e Comprovar. O encadeamento está em o ciclo completo da avaliação psicossocial.

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